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25/01 | 11:57h

Uma israelense desprendida no Brasil

O que está "À Minha Volta"...

Ela observava da janela do quarto o movimento dos seus vizinhos, alguns cumprindo o cotidiano de sair às pressas para o trabalho cujo repouso vem só no sétimo dia da semana, outros comentando da porta de casa notícias ventiladas na imprensa - desta vez com a breve repercussão de jovens, entre eles mulheres, que recusam o alistamento ao exército e a repressão aos Palestinos. Quando, então, sua ansiedade por conhecer o Brasil a lembrou: não é hora de arrumar o mochilão? As passagens já estavam compradas, o pedido de demissão do trabalho aceito, e até o contrato de cancelamento do aluguel do apartamento já estava encaminhado. Os próximos três meses seriam longos para a israelense de Jerusalém, Ortal Hacksur, que decidiu completar seu aniversário de 27 anos no país tropical da maneira mais aproximada da liberdade que ela dizia buscar: desprendida de tudo.

(Convite de Ortal para sua festa de despedida em Israel)

 

Sendo carioca

Apesar de passar anos curiando através de reportagens e livros sobre a cultura brasileira, Ortal deixou para definir a ordem das paradas de sua trip a partir do Rio de Janeiro. “Meu destino vai depender das ideias que surgirem, sugestões”, assim foi ela. Belas praias não faltam em Israel, mas ela desejava pisar inicialmente na areia de Copacabana, e ouvir os despretensiosos “gostosa!”, que a entusiasmaram logo de cara. Na capital do Cristo Redentor, a israelense que já tinha o samba no pé e as músicas de Monobloco e Ivete Sangalo na cabeça, aprendeu algumas expressões em português caprichadas com sotaque carioca: Obrigada! Cai fora mané! Provou açaí (curiosamente a famosa feijoada só provou em Aracaju-SE), e fez amizades que a levou às prévias do carnaval no sambódromo.

 

 


“Eu não pude parar de chorar quando vi o pré-carnaval no Rio. É um sonho se tornando real. Te amo Brasil”, disse Ortal, que junto aos foliões abriu alas à Escola de Samba Portela. Desde os doze anos de idade a israelense já sonhava em presenciar a euforia do carnaval brasileiro, que assistia apenas pelos flashs de TV. Daí o motive de seu coração ter seguido o molejo dos pandeiros e disparado de alegria no ensaio de desfile da Portela. “Quando a Portela começou a marchar e a música a tocar, eu vi todos dançando no mesmo ritmo e expressando muita diversão. Meu coração bateu muito forte e comecei a chorar. Chorei de alegria, e dancei chorando”, contou ela aos risos. Amante de futebol, Ortal também aproveitou para ver um clássico, que rolou entre os dias de sua trip no Rio: Flamengo x Vasco no Maracanã.

 

Entre uma parada de ônibus e outra no Rio, Ortal disse que provou da simpatia dos cariocas, alguns que, mesmo sem saber falar em inglês, arriscavam orientá-la até com mímicas. E movida pelo instinto de porta-voz profissional (comunicadora) que é, a israelense tentava trocar ideias com quem se dispusesse. Mais ou menos assim: “aqui vocês têm mais feriados e dois dias de final de semana para descansar do trabalho. Em Israel, oh meu Deus, só temos um! Mas lá vocês não reclamariam do transporte público, é eficiente, dispenso carro...”. Durante um dos trocadilhos, quando questionada por um guri da favela do Rio sobre de onde ela é, a gargalhada foi inevitável com a associação irônica feita com sua resposta: - É de Israel?! Ai eu respeito!, exclamou o rapaz, posicionando o boné de trás para frente e fazendo simbologia de arma com as mãos.

 

Como todas e todos israelenses, aos 16 anos Ortal já era avaliada em sua escola sobre suas habilidades para aos 18 anos estar disponível ao exército do seu país. Sua grande experiência foi em um ataque na Faixa de Gaza, quando, apesar de sabendo manusear muito bem um fuzil, contribuiu apenas com o serviço social. Sem dúvida sua aguçada cautela a acompanhou nessa trip no Brasil, lugar que ela sabia de que não tinha as melhores estatísticas sobre a segurança pública, contudo em evidencia estava sua simpatia para conquistar a companhia certa de brasileiras para circular por lugares apaixonantes, e provocar risadas diante das recomendações constantes e sérias (sérias mesmo) de sua mãe por telefone: volte com um marido! “Ok, mama. Com certeza, lembrarei disso, e das sandálias Havaianas também” (risos).

 

Do arraial ao frevo

Em poucos dias a israelense deixou a capital para curtir o cenário de Arraial do Cabo, ainda no Rio, onde o sol instiga a diversão e a lua envolve os encontros... 

Mas esteve ali apenas o suficiente para colher novas emoções e para partir para o litoral do Nordeste, Recife – para ver o Galo da Madrugada. Era sábado de carnaval, e mesmo disputando espaço com milhares de foliões, em um calor de 36 graus, Recife novo, Recife antigo e Olinda foram palcos de suas fantasias embaladas de frevo. Ali Ortal pôde ser a bailarina brasileira compartilhando cultura até com alemães, coreanos, venezuelanos e outros que também não deram trégua a vontade de estar no Brasil nessa época.


(Folia da bailarina do frevo)

 

  

 

 

O leitor deve estar estranhando a ausência de citações sobre as influencias religiosas que Ortal poderia ter. De família judia, Ortal cresceu convivendo com o interminável conflito entre judeus e mulçumanos/palestinos, e quase perde um irmão em um ataque terrorista a um ponto de ônibus em Israel. Algumas de suas crenças são tradicionais, seu interesse em casar com um homem circuncidado é real, mas sua disposição de mente estava para uma realidade desprendida. Então, estar em país laico, e onde a maioria religiosa é cristã (devota Cristo, Jesus) não seria problema, mas sim mais um impulso para sensação de estar um pouco livre do cotidiano. “Acho que o Brasil tem incríveis belezas naturais, tem as mulheres mais sexys do mundo e os homens mais amáveis, mas o mais importante é a alegria transmitida pelas pessoas. Essa energia, que parece liberdade, me faz desejar morar aqui”, declarou Ortal. Durante a viagem ela chegou, inclusive, a procurar emprego com a ideia de se mudar de vez para o Brasil, entretanto, sem a ter a fluência em português ficou difícil conseguir.

 

Onde nos conhecemos

  
(Porto de Galinhas/Recife)

 

Foi em Recife que eu a conheci, em um hostel - melhor lugar para encontrar pessoas de diferentes nacionalidades. Interrompemos a folia do sábado de carnaval para ter uma diversão relax em Porto de Galinhas. E ali surgiu o convite para depois da trip em Recife, Ortal partir para Aracaju, minha terra. Na agradável Aracaju, Ortal trocou os hostels para ficar no aconchego do apartamento da designer paulista Fabiana Droppa - local onde outras estrangeiras já haviam passado a experiência do Couchsurfing.

  

Obvio que fomos à praia da Orla de Atalaia, um dos pontos turísticos mais encantadores da cidade, e, à noite, ir ao Maori Bar, curtir música alternativa brasileira foi super ideal. Nos demais quatro dias, as feiras culturais e monumentos do Centro da capital chamaram a atenção da israelense. E praticar o standup paddle, pela primeira vez, na Orla Por do Sol também. Mas, em geral, boa parte do tempo foi dedicado aos jantares, pedais e conversas descontraídas entre mulheres de personalidades distintas: Fabiana, Ortal e eu, compartilhando nossos jeitos e práticas culturais... Foi em um momento desses que aprendemos com Ortal que gritar, repetidamente, no meio da rua, algo como “Ya, ya, ya, ya...” é sinal de celebração em Israel. Ela fez isso quando, durante um pedal, avistou uma noiva sendo fotografada na praça.

 

 
 

Ainda buscando sugestões para as próximas paradas, Ortal pegou um ônibus de Aracaju para a maravilhosa Chapada Diamantina/BA, conforme aconselhamos. Ela estava afim de provar daquele bem estar nas cachoeiras, trilhas e morros da Chapada. Mas não vou estender mais aqui a descrição da continuidade dessa trip de Ortal, que rendeu ainda a capital Salvador e a volta ao Rio de Janeiro, onde precisou finalizar e partir para Israel. Mas ficam aqui outras imagens das lembranças da israelense, que deixou o Brasil em lágrimas, mas já com planos de voltar.

 

E se eu gostei dessa experiência de conhecer essa menina? Gostei muito, me surpreendi! Ortal foi a primeira israelense que conheci, mas seu jeito de ser tão leve e simples me deixou muito a vontade com sua cultura como se já conhecesse outros de lá. Sem contar que seu afeto pelo Brazil acabou refletindo na nossa amizade e em outras que ela construiu aqui! Lhe direi sempre: o carinho é recíproco, carioca israelense!

 

 

Curiosidade: Ortal me contou que já tinha se deparado com brasileiros em sua terra, especialmente, aqueles que choram emocionados visitando ruas que Cristo trilhou ao calvário, caminho diário que ela seguia ao trabalho. “Sempre me sinto estranha quando passo por ali, pareço indiferente aos choros dos cristãos. Por que eu não choro também? Ok, sou de família judia. Estranho isso, não? Mas são apenas diferenças culturais/religiosas. Fiz amizades com cristãos e até ateus no Brasil, e acredito que podem durar a vida toda”, apostou ela.

 

 

*Raissa Cruz, jornalista, editora do portal NaPolítica, mas amante do universo cultural. 

 

 




25-05-2017
 

 

 

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