Na Política

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01/04/15 | 05:03h (BSB)

“Comparado aos descalabros do governo de hoje, Collor foi coisa miúda”

Ex-senador sergipano compara realidades políticas, fala de bancarrota do PT, mas descarta "salvador da pátria"

Por Raissa Cruz

 

Ele foi deputado federal por Sergipe em quatro mandatos e senador por dois. Começou com o MDB e atualmente, mesmo afiançando que está fora da política partidária, permanece filiado ao DEM. O médico Francisco Rollemberg, em entrevista ao Marca Texto do NaPolítica desta semana, pondera se a realidade política que teria tencionado o pedido de impeachment do ex-presidente Collor de Melo se aproxima da atual situação da presidente Dilma Rousseff, diante da queda na avaliação do seu governo e os manifesto por sua renúncia. Apesar de contestar a administração da presidente, o ex-senador Rollemberg considera que o momento não cabe impeachment. “O PT já levou o Brasil à bancarrota do jeito que está e não vai surgir um salvador da pátria que vai resolver por um milagre”, diz. Todavia, ele pontua a defesa por um regime parlamentarista como solução para o país, critica o modelo de reforma política que está sendo debatido, e, quanto a Sergipe, comenta sobre o governo de Jackson Barreto. Esse bate-papo foi no mínimo, uma boa remorada sobre um pouco do Brasil na política dos últimos tempos. Confira!

 

Fazendo uma avaliação da situação política e econômica em que se encontra nosso país, como o senhor, que viveu a época do impeachment ou renuncia do presidente Collor, compararia a realidade desse passado com o momento atual diante das manifestações pelo impeachment da presidente Dilma e o Congresso Nacional que temos hoje?

Hoje as coisas são muito diferentes. Na época do Collor, o que havia era um partido que estava em organização e que tinha saído de uma derrota para o Collor e que trazia uma mágoa muito grande do dirigente principal, o Lula, que, por sua vez, acreditou que sua derrota se deu por causa de um debate na televisão quando foi revelado que Lula tinha uma filha fora do casamento e não tomava conhecimento dessa filha, isso teria provocado sua derrota entre as mulheres. A história de abandono de uma filha era muito séria e isso marcou muito. Ele ficou com isso na garganta e quando houve a possibilidade de fazer a vingança se fez um trabalho prévio de manipulação de massa, de estudantes e jovens, que até aquela época não conheciam a coisa nessa proporção sabem hoje. O Collor continuou imperial, não tomou conhecimento da situação no Congresso e ele próprio autorizou os poderes constituintes a investigá-lo. O fato é que o Collor foi cassado porque recebeu R$ 3 mil naquela época, então comparado com as coisas de hoje a diferença é muito grande! Aquela cassação de Collor foi política.

Ele não contou com o Congresso, pois todos estavam magoados pelo trato, não contou com a massa, nem com a empolgação dos jovens. Pensando em caminhar para uma solução, o Ulysses Guimarães (grande liderança do PMDB na Câmara Federal da época) me procurou para fazer uma composição com participação maior no governo para fazer a acomodação e as coisas caminharem, porque necessariamente, até então, não era necessário tirar o Collor.Fiz parte da CPI que investigou o Collor, e confesso que votei constrangido contra o Collor. Porque o Congresso estava contra ele, nós não éramos bem recebidos e nossas reivindicações não eram levadas a sério. Então o Collor se perdeu por aí.Mas comparado aos descalabros do governo de hoje Collor foi uma coisa miúda no sentido de corrupção. A corrupção de hoje é porque houve uma ocupação, digamos assim, pelo partido que governa o Brasil, o PT, e eles transformaram a coisa pública em privada. A Petrobras que era grande empresa brasileira passou a ser um condomínio do PT, passou a contribuir com o PT. Você está vendo as delegações premiadas contando os fatos, e o Lula encolhidinho e a Dilma dizendo que não sabe de nada.

 

Diante disso, o senhor acha que deve haver o impeachment ao governo da presidente Dilma?

Acho que no momento não. Porque o PT já levou o Brasil à bancarrota do jeito que está e não vai surgir um salvador da pátria que vai resolver por um milagre esses problemas atuais. Há de convir também que além de o PMDB com Ulyces tentar um entendimento que Collor não aceitou, houve um fato que a história pouco registra, mas que eu fui testemunha, que foi a aceitação com a derrubada do Collor pelo vice Itamar Franco. Então o Itamar Franco começou a receber no palácio os congressistas e fazer o seu grupo, do qual também fiz parte não para ser nomeado. Mas dos meus colegas, dois deles foram aquinhoados: Maurício Correa para o Ministério da Justiça, e Jamil Haddad para o Ministério da Saúde. E depois ainda veio a Leonor Franco para Ministra da Ação Social, haja vista também o prestígio de Albano Franco (ex-governador) na Confederação Nacional. Diga-se de passagem, Leonor foi uma excelente ministra. A presença de Itamar à sombra do Palácio no relacionamento com o Congresso ia se regimentando para que ele assumisse o governo.

 

O Congresso Nacional iniciou a legislatura dando sinais de que pretende andar de forma mais independente do Governo. Recentemente, inclusive, houve uma votação sobre a renegociação das dívidas dos Estados, que incomodou muito a presidente, tanto que ela endureceu o discurso afirmando não admitia essa situação e disse que não era assunto da alçada do Legislativo. Em contrapartida, voltando ao passado, mesmo sem o bom relacionamento que o senhor cita, certas votações de interesse do presidente, como o confisco da poupança e outras coisas, ocorreram com rápida aprovação no Congresso naquela época. O que o senhor diz a esse respeito?

Veja, nós tínhamos saído da ditadura e tínhamos um mandato que foi tampão, foi legal, mas não foi legítimo. Porque em não tendo assumido Tancredo Neves, a Constituição rezava que em menos de dois anos tinha que ocorre uma nova eleição, então, o ministro Leônidas do exército conseguiu um parecer para que fosse dado posse. O próprio José Sarney me contou que ele estava em casa de madrugada quando Leônidas deu continência e disse: presidente vamos ao palácio e comunicou que ele era o presidente. Sarney foi um presidente bom e sério, que tentou levar da melhor maneira o Brasil e tomou posse em uma época difícil, em que ele estava enfrentando uma depressão. Ele foi o homem que desencadeou a mudança da moeda, do cruzeiro novo e a gente lembra no governo dele que existiram os fiscais do Sarney, houve o fim do sequestro das boiadas. E diante de toda essa instabilidade apareceu o Collor como salvador da pátria.

 

Então, no início do governo Collor o Congresso estava, até então, confiante na pessoa dele como presidente?

O Congresso estava saindo da ditadura e tentando fortalecer um governo civil. Depois de Collor, o Itamar Franco convidou o Fernando Henrique para ministro da Fazenda, dizem que ele chegou a se arrepender, mas depois FHC tornou Itamar embaixador em Roma, e ele acabou depois no Senado e foi um grande senador. FHC assumiu em seguida de Itamar como presidente e conseguiu equilibrar as fianças. Quando Lula chegou encontrou o Brasil dentro da conjuntura mundial no Top, a economia tranquila. Ai ele aproveita aquela projeto da senhora Cardoso, dona Rute Cardoso, e amplia à Bolsa Família e começou a jogar o dinheiro do país para atender os mais necessitados. Tudo isso acho perfeito, mas é preciso ver de onde se tira esse dinheiro, porque esse pessoal que era beneficiado agora já não pode ser tanto, e nem tampouco contribuíram financeiramente para compensar isso. Enfim, com essas benesses que o PT ampliou e as condições internacionais o Lula fez um bom governo. Mas no segundo ele já começou a cair, e indicou depois a Dilma confiando na austeridade, só que faltou a Dilma a malícia necessária que o Lula tinha de sobra para conduzir o Brasil.

Ela se perdeu e praticamente quebrou o Brasil. Agora não tem como manter o bolsa escola, ou manter o programa que manda os jovens para o exterior. Quem for ao interior de Sergipe pode constatar que os locais de obras do Minha Casa e Minha Vida ou estão sendo invadidas ou cobertas de mato. Isso aqui imagine pelo Brasil. Então, no momento atual, a minha conclusão é que não deve acontecer o impeachment para Dilma, porque não há um salvador da pátria para substituí-la assim de imediato. Agora se as coisas piorarem mais do que estão, o bom senso é que alertaria para o Congresso mudar o regime de presidencialista para parlamentarista, e ela seria a presidente, que como Jânio Goulart, governaria com o Parlamento. Porque no parlamentarismo cai o governo, mas as coisas continuam funcionando.

 

As condições em que se encontram hoje o Congresso Nacional em relação ao Executivo tendem para isso, para buscar esse caminho?

Não digo que tendem ainda, porque como isso implica em uma mudança de Constituinte e uma mudança de regime, eles teriam que estar pensando nisso. Mas, no momento atual, a Dilma precisa ficar em corda curta, e o Congresso tem que voltar a ser o que sempre foi. Os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário devem ser independentes e harmônicos. Da revolução pra cá, o Legislativo ficou dependente, e o Judiciário de certa forma também porque os membros são nomeados pelo presidente. Você vê um advogado que não conseguiu passar em concurso nenhum como ministro do supremo. Então montaram um aparelhamento para tomar posse literalmente do Estado, País. Isso que precisa acabar. Tem que se devolver o Estado ao povo.

 

Então aquele Congresso, que se levantou e tencionou o presidente Collor a chegar a escrever uma carta de renúncia e entregá-la com a ordem de que fosse lida caso os ânimos apontassem para votação de sua cassação, não faria o mesmo hoje?

A renúncia é unilateral e sendo de qualquer forma não cabe discussão. O que precisa acontecer é um Congresso mais forte e uma política financeira mais policiada e séria, para não acontecer o que está acontecendo agora. Você quer ver uma demagogia, no governo de Fernando Henrique Cardoso ele tentou fazer a cobrança da previdência aos aposentados porque o aposentado não contribuía. Nos oito anos o PT disse que era uma tragédia, e quando Lula assumiu a primeira coisa que fez foi ir atrás desse dinheiro e meteu logo 11% de desconto em cima dos aposentados, e depois veio Dilma continuando com isso. E ela quer garfar a pensão das viúvas, o beneficio do trabalhador desempregado, que agora passa um ano e meio para requerer, e outras coisas mais. A arrecadação do Brasil foi para baixo. Mas todas coisas estão mais dependentes de decisões políticas do que técnicas.

 

Reforma Política - 
O que o senhor pensa a respeito da reforma política que está sendo discutida? E que pontos destacaria?

A reforma política, ao meu ver, da forma que está sendo conduzida há muitos anos tem sido uma verdadeira palhaçada, me desculpe a expressão. É mudar tudo para não mudar nada. Qual é reforma que se quer fazer? Fazer a reforma por livro? Você entrega ao partido direito de indicar os candidatos. Se você não votar no partido e não vota no candidato. O presidente do partido é o primeiro da lista e o segundo você, então vai se eleger os dirigentes do partido ou quem os dirigentes querem, e os outros por mais votos que tenham não se elegem. Outra coisa é acabar com o voto proporcional e dar o voto majoritário para todos. Nós vemos aqui na Assembleia deputados com dois mil votos e outro com quase vinte mil que não entrou. Qual é a representatividade disso? Já tivemos uma época chamada de deputados classistas, quando você era obrigado a eleger um deputado classista. Lourival Batista que governador, senador, uma ocasião perdeu uma eleição para um cidadão de São Cristóvão que ninguém conhecia, mas era representante de uma classe. Então essas mudanças políticas só acreditaria se fossem para mudar mesmo. Vamos definir o que seria a República, vamos mudar o sistema para parlamentarismo, porque nossa Constituição foi conduzida para fazer um regime parlamentarista, mas em cima da hora o Jobim e um grupo político do Fernando Henrique Cardoso deram uma guinada, e, embora o conteúdo seja parlamentarista, eles concluíram pelo presidencialismo. Pode olhar a constituição que é isso.

Então essa reforma política que eles tanto falam é uma brincadeira, não digo nem palhaçada, mas uma brincadeira com a cara das pessoas. Porque ninguém de fato está levando isso a sério. Precisamos saber o rumo, se não sabemos para onde ir, não chegaremos a lugar nenhum.

 

A Elba e uma solução para o governo - 

O senhor disse que não há condições para impeachment pela falta, primeiramente, de uma base política, mudança no regime...

É, no momento, ainda não cabe se fazer um impeachment, porque há um trabalho muito interessante realizado pelo PT de blindar seus líderes. O Lula está blindado e a Dilma está blindadíssima. Não se encontra uma causa imediata. No caso de Collor disseram que ele tinha ganhado uma Elba (um carro Fiat Elba) que custou R$ 3 mil, e que ele tinha feito gastos. Mas quando ele renunciou a justiça absolveu ele de tudo. Só que a renuncia não pôde e não pode ser revogada.

 

Mas o que o senhor acha que deve ser feito pelo governo da presidente Dilma para mudar essa situação de crise política?

Primeiro tentar uma composição com o Congresso. Não ser tão imperial, impositiva. E permitir que as coisas sejam bem discutidas para encontrar um caminho natural. E acabar com essa mania do Executivo de querer legislar. As medidas provisórias têm que acabar! Porque com elas o Congresso praticamente não trabalha, não usa a cabeça. Quando ela tramita a medida provisória, ela ao mesmo tempo já começou a vigorar. Então se discuti três meses, seis, um ano e de nada adianta, porque o negocio já está funcionando, a sociedade já absorveu e ninguém mais vai votar contra.

 

Volta de Lula - 

O senhor acredita na possibilidade de o ex-presidente Lula voltar à disputa, agora pela sucessão de Dilma?

O Lula é uma figura extremamente carismática. Mas, eu conversa com um chefe de partido no interior de Sergipe e ele comentava: na política os inimigos depois viram amigos, os amigos viram inimigos violentos, e depois quando a gente fica sem saber para onde vão as coisas, algo novo acontece. E ainda tem algo que ninguém espera, nem gosta, que é a morte seguida de substituição natural. Então ninguém sabe do que vem por ai de fato. Lula programou a vida dele para fazer um José Dirceu. Mercadante também tentou, mas é de uma antipatia terrível, conheci de perto e sei que esse não vai a lugar nenhum. E por aí vai...

 

Governo de Jackson - 

Apesar de o senhor reafirmar a nossa reportagem que não está se envolvendo mais com política, nem tem pretensões desse tipo, pelas suas andanças na capital e no interior, qual a avaliação que o senhor faz do governo do nosso Estado, vindo de Marcelo Déda (PT) e agora com Jackson Barreto (PMDB)?

O Estado de Sergipe de certa forma foge da realidade vivida no resto do país, porque é um estado pequeno e fácil de ser gerido, os governadores todos que tivemos, nenhum me recordo de ter sido corrupto. Então tivemos bons governadores. Déda foi uma grata surpresa, um rapaz novo e inteligentíssimo, muito culto, e com um sentido muito grande do país como pátria, nação. E Jackson Barreto é um político muito hábil, também muito agradável, e de grande aceitação popular, e eu acho que o governo dele está navegando tranquilo. Não deverá atrair maiores problemas não.

 

Então o senhor acha que os problemas nacionais não refletem ou não refletirão em Sergipe?

Eu acho que vão chegar aqui os problemas econômicos, mas em termos de gestão, de preocupação política para com o governador, não. Pode conversar nas ruas e não há ninguém insatisfeito com Jackson ou com o que foi o governo Déda. Os problemas que há são pontuais, saúde, segurança... Esses problemas pontuais acontecem em todo lugar. Inclusive, gostei de ele ter colocado um secretário da saúde (José Macedo Sobral) que não é médico para é administrador. Porque médicos não somos gestores, então acho que para administrar tem que ser um gestor, inclusive porque o médico joga muito o coração na coisa, e administração tem que jogar mais o cérebro. A gente se lembra de Serra como ministro da Saúde, mas não lembra nenhum outro que tenha sido. Então eu acho que Jackson tem seguido um caminho certo.

 

Agradecemos sua participação. Gostaria de acrescentar algo mais, quem sabe sobre sua reaproximação com a política?...

Eu que agradeço pela entrevista, e sobre a política, realmente, não quero me envolver mais. Sou um político e acabo me envolvendo por acompanhar as discussões, mas não quero mais viver a política partidária. Conservo minhas amizades pelo interior, ajudo meus amigos, ainda opero como médico até o dia que der. Quando tremer as mãos eu paro. E assim eu sigo, dentro das possibilidades que minha saúde permite.

 

Da redação NaPolítica 

 



28-06-2017
 

 

 

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