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24/03/13 | 12:18h (BSB)

“Eu preciso que o governador seja ouvido. O que se tem a temer?"

Jornalista Cristian Góes quer arrolar Marcelo Déda como testemunha."Onde está a ampla defesa?"

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“Sou eu que me assumo como coronel”

Por Joedson Telles

 

“Está cada vez mais difícil manter uma aparência de que sou um homem democrático. Não sou assim, e, no fundo, todos vocês sabem disso. Eu mando e desmando. Faço e desfaço. Tudo de acordo com minha vontade. Não admito ser contrariado no meu querer.  Sou inteligente, autoritário e vingativo. E daí?...  Ô povo ignorante! Dia desses fui contrariado porque alguns fizeram greve e invadiram uma parte da cozinha de uma das Casas Grande. Dizem que greve faz parte da democracia e eu teria que aceitar. Aceitar coisa nenhuma. Chamei um jagunço das leis, não por coincidência marido de minha irmã, e dei um pé na bunda desse povo”, escreveu o jornalista Cristian Góes, no dia 29 de maio de 2012, no portal Infonet, como parte de uma crônica intitulada “Eu, o coronel em mim”. Apesar de jurar na cruz que escreveu o texto no terreno da ficção – e desafiar qualquer a encontrar uma nominação nas linhas -, o jornalista passou a viver um drama, a partir do momento em que o desembargador Edson Ulisses de Melo vestiu a carapuça e, argumentando que o tal “jagunço” seria ele, o acionou na Justiça, inclusive pedindo sua prisão. Na sexta-feira 22, aconteceu mais uma audiência. Mas nada de avanço. A defesa do jornalista arrolou como testemunha o governador Marcelo Déda, mas o Judiciário indeferiu e deu um prazo de cinco dias para que uma nova testemunha de defesa seja apresentada. No último sábado, após um contato telefônico, o jornalista Cristian Góes, gentilmente, aceitou ser entrevistado pelo Universo Político.com. Boa leitura, internauta.       

 

Surpreendeu o fato de o governador Marcelo Déda ter sido vetado e não poder testemunhar?

Claro. Até agora não entendi porque a juíza não aceitou ouvir uma testemunha de minha defesa. Onde está a ampla defesa? Eu preciso que o governador seja ouvido. Será esclarecedor. O que se tem a temer? O governador Marcelo Déda é peça principal nessa história e não foi eu quem o colocou nessa condição. Foi o próprio desembargador Edson Ulisses, cunhado dele, e o Ministério Público, que insistem numa tesa absurda, esdrúxula, inusitada de que a personagem do coronel fictício é o governador de Sergipe. Ora, se eles supõem que a crônica literária que fiz é um ataque direto ao governador e que Edson Ulisses só ingressou com a ação porque é cunhado de Marcelo Déda, então, é preciso ouvir o governador.

 

O que a defesa espera com o testemunho do governador?

Que ele fale a verdade. Se ele entendeu que o texto foi uma crítica direta a ele. Onde está no texto, qual a expressão que consta lá, qual a palavra no texto que liga a figura do coronel a dele? Se ele se sentiu atacado, porque ele não ingressou com uma interpelação judicial contra mim? Queria saber, por exemplo, se o governador tomou conhecimento antes dessa ação judicial de seu cunhado, o que ele pensa sobre ela? Registre-se que na crônica literária postada em meu blog em maio de 2012 não há citação de nenhum nome, de locais, de datas, e nem de cargos como governador, juiz, desembargador, deputado, etc...

 

Não há o risco de ser um tiro no pé, já que há quem diga que o coronel que aparece no texto é o próprio governador?

Crônica literária é de livre interpretação. Por exemplo, olhe lá nos comentários postados na Infonet. Tem gente que identifica o coronel como sendo Marcelo Déda, outros dizem que sou eu mesmo, outros dizem que é João Alves, outros dizem ainda que a figura daquele coronel é Antônio Carlos Magalhães, José Sarney, políticos do Mato Grosso do Sul, do interior de São Paulo, de Alagoas, etc... A interpretação é livre, assim como é a expressão. Na crônica literária que fiz falo de “fazenda” e Déda tem fazenda? Falo de “escravos” e Déda tem escravos? Digo que o coronel contrata capangas, que manda matar, que expulsa pobres e pretos, que manda na Justiça. Tenho certeza que o governador Déda não tem esse perfil, mas, infelizmente, o desembargador Edson Ulisses, e o Ministério Público entendem que o meu texto é totalmente direcionado ao governador. Um absurdo!

 

O desembargador teria decidido lhe processar, entre outros motivos, por ter recebido telefonemas de pessoas que o reconheceram no texto. Faz sentido?

Foi isso o que disseram o próprio desembargador e o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe, Clóvis Barbosa. Veja que absurdo? Alguém lê, interpreta ao seu modo. Coloca na cabeça que a expressão “jagunços das leis” é uma clara referência a um desembargador, que é um desembargador do Tribunal de Justiça de Sergipe e que esse desembargador é Edson Ulisses, que é cunhado do governador Marcelo Déda. Detalhe importante. A crônica literária foi publicada em maio de 2012 e 110 depois, isto é, mais de três meses, o desembargador entra com a ação. Por isso, acredito que essas ações do desembargador contra mim podem ter outros interesses, principalmente políticos. Já respondi a outros tantos processos e jamais fui condenado. Mesmo assim, apesar de alguma ação judicial ter o objetivo de gerar medo, constrangimento, censurar, não recuei um milímetro. Não satisfeitos, agora, a ação é de um membro do alto Judiciário sergipano, um desembargador, que é vice-presidente do Tribunal de Justiça e cunhado do governador Marcelo Déda. Aliás, o conselheiro do Tribunal de Contas, Clóvis Barbosa, foi claro em seu depoimento em favor de Edson Ulisses. Ele disse que minha atuação é política, que sou porta-voz de um grupo político aliado, mas que faz oposição ao governador. Foi perguntado e insistido que ele nominasse o grupo político e ele apenas respondeu: “todo mundo sabe”. Deixei o PT faz mais de dois anos. Não trabalho com a deputada Ana Lúcia desde 2007. Sou filiado ao PCB, um partido muito simples e ainda pequeno, que não é aliado ao governo.

 

O que o senhor tenta passar à sociedade no texto? Há referência ou é pura imaginação?

A crônica literária é em primeira pessoa, ou seja, sou eu que me assumo como coronel. Dias antes de escrever o texto participei de um encontro sobre direitos humanos no auditório da Sociedade Semear. Numa palestra, uma socióloga do Ceará dizia que muitos de nós ainda carregamos dentro da gente as figuras do coronel, do escravo, do jagunço, ou seja, de personagens de um tempo antigo. Achei interessante aquilo e resolvi escrever – em primeira pessoa – o texto “Eu, o coronel em mim”. A crônica não passa de ficção. É uma espécie de confissão de um coronel das antigas que se vê perturbado com a democracia de hoje. Assim, para sobreviver, esse coronel precisa lidar com greves, com movimentos, o que é muito difícil para ele porque ainda guarda dentro dele o poder e a força dos tempos antigos. Ou seja, não há nenhuma referência a Sergipe, não há um ano específico, uma pessoa, um evento concreto, cargos públicos. E mesmo que tivesse era irreal, ficcional, imaginativo. Ou seja, não há como ninguém na vida real hoje se encaixar nele. O governador Marcelo Déda, por exemplo, é um homem inteligente. Com certeza ele leu e obviamente não se enxergou como o coronel da crônica. Certamente uma turma de lambe-botas e bajuladores de Marcelo Déda deve ter aconselhado ele a entrar com ação contra mim, mas o governador é um homem de leituras literárias, é inteligente.

 

O senhor acredita que o jornalista articulista, o crítico, o que pensa e se aventura ir além de apenas reproduzir o juízo alheio, está em xeque?

Com certeza. Se essas ações contra mim por conta de uma crônica literária ficcional prosperar em Sergipe, a situação do exercício profissional ficará insustentável. É a mais óbvia e clara censura. Sinceramente, não acredito que serei condenado, que serei considerado um criminoso por ter escrito uma crônica literária, ficcional e sem citar nome de ninguém. Mas se isso ocorrer será inédito na história da imprensa e do Judiciário em Sergipe, e tenho certeza que terá ampla repercussão nacional e até internacional, e que será profundamente negativas para o Judiciário, para Marcelo Déda, e para Sergipe. Se isso ocorrer, penso, sinceramente, depois de cumprir a pena criminal, publicar uma certidão de óbito de minha de profissão como jornalista, e deixar Sergipe, indo pedir abrigo em outro estado. O mais grave é que essas ações judiciais do desembargador já provocaram e vão gerar ainda mais um clima de terror no exercício dos demais jornalistas e outros escritores aqui, claro, daqueles que não dizem amém ao poder. Os objetivos diretos das ações judiciais subjetivas são contra mim, mas na verdade, atacam de morte à liberdade de expressão de todos.

 

Como o senhor avalia a solidariedade não apenas de outros jornalistas, mas de diversos outros profissionais, entidades de classes, movimentos sociais, inclusive fora de Sergipe?

Tenho recebido milhares de apoio e solidariedade de todos os cantos do país e de fora também. Há um clima de revolta, de indignação com o desembargador, com o governador, com o Ministério Público por conta do ataque à liberdade de expressão, pelo absurdo dessas ações. Este caso de Sergipe, por exemplo, foi incluído num relatório internacional do Repórteres Sem Fronteira, que tem sede em Paris, e foi distribuído para 167 países. Se essa ação contra a liberdade de expressão e imprensa prosperar em Sergipe, o Estado pode até sofrer com recomendações negativas de investimentos. Sergipe pode ser considerado um lugar no mundo onde a atividade intelectual e jornalística sofrem sérios riscos. Agradeço demais as manifestações corajosas de solidariedade a mim, principalmente num estado como Sergipe - onde há ainda muitas relações de medo, de compadrio, de perseguição.

 

Há quem ligue o texto a uma decisão do Tribunal de Justiça, que teria favorecido o governo do Estado frente a um pleito do Sintese. Há sentido nisso?

Onde há isso no texto que fiz? Qual o evento? O conselheiro do Tribunal de Conta, Clóvis Barbosa, disse na audiência que quando eu escrevi “invadiram uma parte da cozinha de uma das Casas Grande”, eu estava me referindo claramente à Secretaria de Estado do Planejamento. Veja só que maluquice? Associar uma parte da cozinha de uma das casas grandes como uma secretaria estadual? Tenha paciência. É querer achar chifres em cabeça de cavalo. Não tem, mas se eu digo que tem, porque eu sou o poder em Sergipe, é porque tem e pronto e você tem que aceitar. Não é assim, não. Cala a boca já morreu. Um detalhe importante: há uma decisão do próprio desembargador Edson Ulisses, de 13 de março do ano passado, na Apelação Criminal 1506, da 9ª Vara Criminal, que ele diz: “é imprescindível à demonstração da intenção do querelado de ofender a imagem ou a honra objetiva do querelante”. Assim, é completamente impossível na crônica literária encontrar a mínima prova da intenção de ofender a honra de ninguém. Esse alguém não existe no texto. É fato. É concreto. Não é uma questão de interpretação. Falta, portanto, justa causa para que a ação se processe.

 

 

Como tem sido os seus dias desde que o desembargador resolveu lhe processar? Mudou muito a sua rotina?

Esses processos alteraram profundamente minha vida. Primeiro porque eu não esperava. Uma crônica boba, escrita em maio do ano passado, sem fazer referência a ninguém. Não esperava que um desembargador, com tantas atribuições importantes a fazer, mobilizasse todo um aparato jurídico para me processar e pedir minha prisão por quatro anos e pagamentos de indenizações por danos morais. Então, minha vida virou de pernas por ar. Vivo um momento pessoal muito difícil. Por conta dessas ações enfrento problemas no trabalho e em minha casa. Estou concluindo o mestrado em Comunicação na UFS e tudo isso fica profundamente prejudicado. Fico preocupado com meus filhos e com minha esposa que já entendem como funcionam essas coisas em Sergipe e ficam temerosos que eu possa ser preso, condenado a pagar por um crime que não cometi. Escrever não é crime. Preocupação maior tenho com meus pais, que já têm idade avançada e fazem questão de estar em todas as audiências e também temem que eu seja preso, obrigado a pagar altas indenizações do que não tenho. Graças a Deus e aos tantos amigos, o advogado Cézar Britto disponibilizou, gratuitamente, o grande companheiro Antônio Rodrigo para fazer minha defesa, porque se fosse para pagar eu não tinha condições. Mas tenho enfrentado toda essa perseguição, que não é apenas de um desembargador, com muita serenidade e confiança em Deus, principalmente porque recebo o carinho, apoio, solidariedade e muitas orações de tanta gente anônima.

 

O senhor escreveria o texto “Eu, o coronel em mim” outra vez?

Não só escreveria, como estou e continuo escrevendo. Quem sabe se “Eu, o coronel em mim” não vira um livro? Quem sabe se eu publicar em outro estado algumas pessoas mais inteligentes possam entender o texto como uma crônica literária, o que de fato é?

 

Do Universo Político.com

 



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