Na Política

Biblia Online

02/10/11 | 18:42h

A cada ano, a região latino-americana é palco de processos eleitorais que vão desde eleições gerais, parlamentares, municipais até referendos revocatório, constitucionais, etc. Tais eventos costumam ser acompanhados por missões de observação eleitorais internacionais e, em alguns dos casos, também nelas participam observadores locais.

 

Com a observação eleitoral, pretende-se a busca sistemática de informação sobre o processo eleitoral, com o propósito de chegar a uma adequada avaliação do mesmo tendo por base a informação recolhida (International IDEA, 1997). Um dos objetivos destas missões é a legitimação do processo eleitoral, e o propósito da avaliação é o de chegar a uma conclusão sobre o grau de transparência, equidade e liberdade em que a eleição ocorreu.

 

Outro, dentre os propósitos, é a possibilidade de contribuir para a resolução de conflitos, quando o palco político eleitoral está carregado de desconfiança ocasionada, em alguns casos, pelo autoritarismo gerado pelos governos afetando diretamente a oposição política, a sociedade civil e, portanto, a democracia.

 

As missões de observação eleitoral costumam acompanhar o processo eleitoral por um período bastante curto (um par de semanas). No entanto, antes de sua chegada, nas campanhas eleitorais podem acontecer uma série de problemas, inclusive alguns de caráter estrutural como, por exemplo: constatar que boa parte da população, especialmente mulheres, indígenas e setores marginalizados, não conta com documento de identidade ou não aparece no padrão eleitoral, o que automaticamente pode impedir-los de exercer o direito ao voto. Ou, em outros casos, como o nicaragüense, o documento de identidade costuma ser um privilégio reservado aos militantes e simpatizantes do governo.

 

Com esta problemática real, perguntamo-nos, deveriam as missões eleitorais legitimar os resultados eleitorais? Ou, em outro caso, se as missões eleitorais não o fazem, gerar-se-á um palco de maior autoritarismo, incerteza, instabilidade política e social? Por outro lado, deveríamos refletir se o direito ao voto na América latina contínua a ser um privilégio que "muitas minorias" ainda não têm. 

 

O que sem dúvida é uma realidade é o fato de só as missões eleitorais de longo prazo, com adequados recursos, têm a possibilidade efetiva de ter impacto sobre eventuais manipulações, falta de transparência e fraude.

 

*Fran Espinoza é politologo, doutorando em Estudos Internacionais e Interculturais, Universidade de Deusto, Espanha. Contatos: espinoza.fran@opendeusto.es

 

 

 

Comentários dos internautas

13/10/2011 - Jorge (Nicaragua)

excelente articulo Fran...
Gracias por compartirlo...

13/10/2011 - Felix (Nicaragua)

Excelente! Con todo gusto lo voy a distribuir a mis contactos.

13/10/2011 -

Está correcto aunque la MOEs no necesariamente sean para legitimar procesos (pueden servir para deslegitimarlos, como en el caso de la misión de la EU en Etiopia). Es un tema muy amplio al que te referis, pero está bien. Podrias evitar usar "etc..." pues denota pereza en la identificación de los actores, y referirse a "observadores domésticos" en vez de "locales" (ya que diplomáticos a veces también observan, son locales pero no domésticos o nacionales, a lo que seguramente te refieres).

13/10/2011 - ML (Nicaragua)

Excelente profesor. En el instituto donde yo trabajo siempre hemos apoyado los esfuerzos de observación electoral en los distintos países donde estamos... sin duda Ud. toca una de las pregutnas claves sobre la legitimación. Gracias por compartir el artículo.Saludos.

13/10/2011 - Alicia (Argentina)

Muy bueno, Fran.
Es directo, claro y preciso.
Me servirá también para explicar la observación de procesos electorales y sus objetivos a mis alumnos.
Muchas gracias!

13/10/2011 - Isabel (Nicaragua)

Sé que siempre estás atento a lo que nos está pasando por acá y máxime en eventos como los que se nos avecinan.
Supongo que sabes que el Poder Electoral ha inventado una figura rídicula llamada "acompañamiento de la observación electoral", ese acompañamiento está reglamentado para los organismos que el gobierno autorice sean los observadores "legítimos" y con autoridad para comentar, valorar o criticar el proceso electoral, pero la OEA, El grupo Carter y otros reconocidos como Ética y Transparencia (que no es afin al gobierno) serán acompañantes, pero prácticamente sin voz... Esto es realmente escabroso y nos hace sentirnos impotentes, frustrados y sin muchas esperanzas... ellos tienen montado el escenario y sólo esperan salir levantando las manos. Creo que por ahora los demócratas sólo estamos apelando a la conciencia de la mayoría de los nicaragüenses pensantes y con criterio para escoger a un presidente y no a un dictador.


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28/03/11 | 21:56h

Os meios de comunicação sem dúvida alguma desempenham um papel importante na sociedade. O poder destes é tão forte que são capazes de formar a opinião pública e, portanto, nos fazem perceber os fenômenos sociais. Até aqui não disse nada novo, mas destaco o anterior, porque me parece que existe uma distorção na forma que alguns meios de comunicação querem manejar o interesse que os brasileiros podem ter em aprender espanhol.

 

Ao revisar alguns textos de jornais, fica a impressão de que aos brasileiros interessa estudar espanhol porque a Espanha é o segundo investidor no Brasil ou porque o espanhol pouco a pouco está ganhando o terreno português. Ressalto um par de notas que nos últimos dias se publicaram na Espanha:

 

"La conversación entre Dilma y el Príncipe duró 40 minutos en los que el intérprete tuvo poco trabajo porque ambos se entendieron en casi todo. Ambos recordaron que las empresas españolas están ya muy presentes y activas en Brasil en sectores básicos como telecomunicaciones, bancos y energía".

 

"El español entra despacio, pero no para. La creciente demanda se ha notado también en las nueve sedes que el Instituto Cervantes tiene en Brasil, cuyas matrículas han pasado de 2.308 en 2006 a más de 16.000 en 2010".

 

Após ler estes tipos de notícias, não deveríamos nos surpreender que alguns leitores espanhóis realizem comentários à nota jornalística como: "A Espanha deveria deixar de subsidiar estes tipos de coisas".

 

Desta forma, fica a reflexão se o investimento espanhol é tão forte que os brasileiros terão que aprender espanhol ou se o investimento espanhol é responsável em grande parte pela crescente demanda do idioma no Brasil. Para dizer a verdade, desconheço os números exatos do investimento espanhol no Brasil, mas é preocupante que se realize uma leitura demasiadamente simplista do porque do interesse dos brasileiros em aprender espanhol.

 

Fernando Henrique Cardoso, explicou uma das razões desse por que: "O Brasil é um país situado entre o oceano e o espanhol". Mas, quem viveu nesse país percebe que entre os brasileiros existe esse espírito "latinoamericanista". Estes crêem na integração da região e são conscientes da sua atual liderança. Contudo, os brasileiros não se sentem ameaçados pelo idioma, ao contrário, o Brasil é um bom exemplo de como se enriquece um país sem perder a sua essência.

 

Por uma questão de reciprocidade e pela proximidade geográfica, é um desafio tanto para Espanha como para os demais países da América do Sul, introduzir o português como segundo idioma nas escolas. Dessa maneira poderemos desconstruir essa visão de idiomas colonialistas e começar-se-á a trabalhar de maneira conjunta como região.

 

Mas, estaríam os espanhóis interessados em aprender português? E os países do Mercosul serão capazes de introduzir em seus sistemas educativos o português? Se as respostas são afirmativas, qual papel dos meios de comunicação para fomentar o interesse em aprender o idioma que fala o vizinho?

  

Fran Espinoza é Politologo, graduado na Universidade Rafael Landivar (Guatemala), Mestrado em Estudos Internacionais de Paz, Conflito e Desenvolvimento, Universidade Jaume I, Castellón (Espanya), doutorando em Estudos Internacionais e Interculturais, Universidade de Deusto, Vizcaya, Espanha. Contatos: espinoza.fran@gmail.com

*Os textos publicados neste espaço são de responsabilidade única de seus autores.

07/02/11 | 14:25h

Enquanto escrevia este artigo, pensava no título que lhe daria. Como um mais sensacionalista, como "Aumento da violência contra as mulheres" ou "Andam a assassiná-las", possivelmente poderia ter sido para alguns mais atrativo de ler, poderia chamar mais a atenção e, inclusive, provocaria um pouco de mal-estar. Mas mais do que isso, o que pretendo é, de alguma maneira, contribuir para sensibilizar o leitor para um problema social (uma epidemia social) cuja resolução passa inicialmente por nos darmos conta de que existe como tal, como um problema social, que necessita do envolvimento da sociedade civil e de políticas governamentais na área da prevenção.

 

O feminícidio compreende um leque de atos violentos que vão desde os maus-tratos emocionais, psicológicos, físicos - assim como a tortura, a violação, a prostituição, o assédio sexual, o abuso infantil, o infantícidio feminino, a mutilação genital, a violência doméstica - a toda política que resulte na morte de mulheres, tolerada pelo Estado.

 

Há duas semanas foi noticiado em alguns jornais o assassinato de Marisela Escobedo Ortiz, de 52 anos de idade, ocorrido em frente ao Palácio do Governo de Chihuahua, uma mexicana que lutava há dois anos para que se fizesse justiça pela morte da sua filha e por crimes que ficaram impunes desde 1993, na Ciudad Juárez.

 

A ONG brasileira Instituto Sangari, na sua publicação "Mapa da violência 2010", informa que 12 mulheres morrem todos os dias no Brasil em consequência de violência doméstica. A maioria é assassinada pelo companheiro, ex companheiro, ou por um parente e 40% tem entre 18 e 30 anos. De acordo com a Secretaria de Estado de Políticas para as Mulheres, o número de denúncias de abusos cresceu 100% entre 1997 e 2007.

 

O relatório realizado pela Federação Internacional de Direitos Humanos, demonstra a gravidade da situação ao nível latino-americano. Por exemplo: na Colômbia morre uma mulher a cada 7 dias; na Guatemala entre os anos 2000 e 2006 contaram-se 2.335 assassinatos, no Perú são reportados 8 feminícidios por mês; na Bolívia mais de um assassinato por dia; em El Salvador regista-se um incremento de casos de feminícidio de 224% entre 1999 e 2007; no México as estatísticas nacionais referem que entre 1999 e 2005, onde se atingiu um total de 6 mil assassinadas, com uma média de 4 mulheres e crianças do sexo feminino assassinadas por dia.

 

São só cifras ou deveríamos perguntar porque é que este fenómeno continua a crescer? É um assunto tão complexo que seguramente deverá ter diversas explicações. Ocorrem-me duas posibilidades de resposta. Em primeiro lugar, existe tolerância social face ao feminícidio. Muitas vezes, quando aparece uma mulher assassinada, justifica-se o ato dizendo que era uma prostituta ou que estava metida em alcóol ou drogas: preconceitos e esteriótipos sociais aos quais não são alheios muitos membros do sistema policial e judicial que investigam os crimes. Em segundo lugar, os Estados latino-americanos não têm sido capazes de atender íntegramente ao fenómeno do feminícidio, porque não tem instaurado políticas de prevenção, nem tão pouco têm sancionado adequadamente os ofensores. Assim viola-se a Convenção de Belém do Pará (artigo 7, b): "Os Estados devem actuar com a devida diligência para prevenir, investigar e sancionar a violencia contra as mulheres."

 

Fran Espinoza é Politologo, graduado na Universidade Rafael Landivar (Guatemala), Mestrado em Estudos Internacionais de Paz, Conflito e Desenvolvimento, Universidade Jaume I, Castellón (Espanya), doutorando em Estudos Internacionais e Interculturais, Universidade de Deusto, Vizcaya, Espanha. Contatos: espinoza.fran@gmail.com

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18/11/10 | 13:12h

Os princípios básicos da ideologia neoliberal, o "Consenso de Washington", foram publicados por John Williamson em 1990, o autor recolhia os eixos comuns dos conhecimentos compartilhados pelos economistas considerados sérios. As prescrições políticas: alcançar a disciplina fiscal, redefinir as prioridades da despesa pública, aumentar a base impositiva e reduzir a contribuição marginal, institucionalizar as taxas de juros baseada no mercado, adotar taxas de mudança competitiva, liberalizar as empresas estatais, desregular a economia, fortalecer os direitos da propriedade.

 

"O Consenso" formalizou um processo de mudança que tinha começado, pelo menos uma década antes. O feito com que disparou o processo de transição na América Latina foi a crise da dívida de 1982 (Rodrik, 1996). A diferença com países, estes Asiáticos, que tinham adotado um enfoque orientado para a exportação, e que não viram a crise. As políticas intervencionistas da América Latina eram consideradas como uma aposta perdida. Ao realizar comparações entre as regiões se demonstrava que os países latino-americanos deviam emendar suas estratégias o mais breve possível, preferivelmente, copiando o modelo asiático.

 

A transição à democracia supôs o assentamento de uma série de regimes de cidadania que variaram dos corporativistas aos neoliberais. O giro que produziu a transição de regimes corporativistas a neoliberais na América latina aconteceu em dois períodos: primeiro com a resposta à crise da dívida em 1982, e em segundo com a reação ante os falidos que pretendiam reduzir uma situação de hiperinflação sustenida. Enquanto os regimes corporativistas davam prioridades aos direitos sociais e civis, algumas vezes com políticos através de formas de intermediação de interesses baseados na classe, os regimes de cidadania neoliberal devam prioridade aos direitos civis e políticos mediante formas pluralistas de intermediação de interesses. Os dois regimes redesenharam, de maneira profunda e intencionada, os recursos e instituições, assim como os termos do acesso público aos mesmos.

 

Destaca-se um segundo fator que impulsionou as mudanças políticas: o fracasso das medidas heterodoxas para frear a inflação. Em meados de 1980, a maioria dos países latino-americanos se encontravam em pleno processo de transição. A democracia estava arraigando seus alicerces e a maioria dos países já tinham presidentes civis. "Mas a inflação seguia sendo o maior problema e alguns líderes políticos trataram de solucioná-la através de medidas heterodoxas" (Pastor, 1992). Após período inicial de sucessos, todos fracassaram ao tratar de estabilizar suas economias. Não seria surpresa ver estes líderes deixando seus cargos com índices de aprovação popular extremamente baixos, junto de um enorme descrédito de suas políticas heterodoxas. O anterior demonstra que em termos econômicos, as políticas intervencionistas tinham fracassado duas vezes: a primeira ao expor à região à crise da dívida e a segunda, ao fracassar na tentativa de solucionar o problema da hiperinflação.

 

Foi assim que durante a década de noventa na América Latina se aplicou, com convencimento, mesmo que com diferente intensidade, as diferentes reformas do Consenso de Washington. Ditas políticas, as reformas foram respaldadas pelas instituições financeiras internacionais, através da outorga de créditos vinculado às reformas e condicionados a sua aplicação, e ao mesmo tempo se fomentava a esperança dos líderes nacionais de fazer retornar o capital e o investimento estrangeiro à região depois da desastrosa década de oitentas.

 

Nesta última década se comprovou que o neoliberalismo deu resultados literalmente catastróficos em termos de efeitos econômicos e sociais. Aumentaram-se drasticamente as desigualdades econômicas e a precariedade das condições de trabalho, e para ninguém é segredo que o desemprego vai aumentar (García Linera, 2005). O neoliberalismo segue afetando negativamente até os dias de hoje. Que modelo de desenvolvimento, então, seria preciso introduzir nas Américas?

 

Fran Espinoza é Politologo, graduado na Universidade Rafael Landivar (Guatemala), Mestrado em Estudos Internacionais de Paz, Conflito e Desenvolvimento, Universidade Jaume I, Castellón (Espanya), doutorando em Estudos Internacionais e Interculturais, Universidade de Deusto, Vizcaya, Espanha. Contatos: espinoza.fran@gmail.com

*Os textos publicados neste espaço são de responsabilidade única de seus autores.

 

13/07/10 | 20:20h

Há alguns anos um professor em uma faculdade realizou um comentário bastante propício naquele momento, disse o seguinte: - Enquanto as crianças ricas do norte (referindo-se aos Estados Unidos e a Europa) seguem consumindo cocaína, as crianças do sul continuam produzindo-a. Seu argumento se baseou na lei da demanda e da oferta.

 

Evidentemente na atualidade esse comentário já não tem a mesma validade, seria preciso agregar-lhe que as crianças pobres do sul também produzem para as crianças pobres do sul. Basta visitar algumas cidades latino-americanas para dar-nos conta dos efeitos que o consumo de drogas está provocando. Salvador/BA é um bom exemplo do encruado que está a situação no sul.

 

No entanto, Salvador/BA não é o único lugar onde se pode observar este problema. A situação não é muito diferente no Caribe ou na América Central. Alguns países se transformaram em zonas estratégicas para o tráfico de drogas e amparo para organizações criminais dedicadas à prostituição, contrabando de imigrantes, falsificação, desvio de mercadorias e outras atividades aproveitando a carência de controle por parte das autoridades, materializada pela ausência do Estado.

 

Há alguns anos o problema das drogas ilegais só era uma questão tratada pelos especialistas em saúde. Também se discutia em debates universitários e em alguns organismos estatais dedicados à luta contra o crime organizado. Hoje em dia a situação mudou, porque o narcotráfico representa uma séria ameaça à segurança nacional, considerando não apenas o campo delitivo, já que afeta todos os setores: político, econômico, social e cultural de qualquer Estado.

 

Interessante como este tema passou a ser analisado apenas como crianças ricas consumidoras e crianças pobres produtores. Transformando o assunto em um tema político e inclusive eleitoral. Basta lembrar as afirmações que fez, no início do mês passado, o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), José Serra: "os Senhores acham que a Bolívia vai exportar 90% da cocaína consumida no Brasil sem que seja cúmplice o Governo?". Serra acusou a Bolívia de ser responsável pela cocaína exportada ao Brasil, e lembrou que esta é a base para a produção de crack. Por sua vez, a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff, aproveitou para afirmar que ditas acusações não têm provas e que "são indignas de um estadista", lembrando que não é possível culpar um Governo pela droga que sai de um país.

 

Se nos detivermos a pensar quem dos candidatos tem razão, possivelmente a resposta variaria dependendo de nossa ideologia ou de nosso candidato favorito. Mas deveríamos ir um passo mais adiante e sermos conscientes da ampliação do narcotráfico que afeta a todos. Deveria ser tratado não somente como um tema eleitoral, mas também político, que requer o envolvimento de todos os agentes sociais, forças de segurança e políticas de Estado. Se deixarmos que o narcotráfico se transforme somente em um tema eleitoral, muito em breve todos estaremos vivendo em "Cidades de Deus".

 

Fran Espinoza é Politologo, graduado na Universidade Rafael Landivar (Guatemala), Mestrado em Estudos Internacionais de Paz, Conflito e Desenvolvimento, Universidade Jaume I, Castellón (Espanya), doutorando em Estudos Internacionais e Interculturais, Universidade de Deusto, Vizcaya, Espanha. Contatos: espinoza.fran@gmail.com

*Os textos publicados neste espaço são de responsabilidade única de seus autores.

22/06/10 | 17:52h

A princípio do ano 2000, depois dos primeiros triunfos da esquerda na América latina, era evidente que algo novo estava por ocorrer, pela primeira vez na história da região se via um claro distanciamento dos Estados Unidos, havia muita expectativa nos resultados eleitorais de cada um dos países, cada vez que ganhava um novo governo de esquerda o mapa político se reconfigurava, era a primeira vez que se via a oportunidade de uma integração política, a conformação de um bloco - a utopia.

 

Necessitamos pouco tempo para que nos déssemos conta que para pensar e trabalhar como um só bloco é preciso dar um giro em nossa forma de perceber a política. Mesmo que a maioria dos novos governos usem a bandeira da esquerda, há grandes diferenças entre eles e, além disso, alguns desses líderes têm muito pouco interesse em conformar um só bloco político e econômico que tenha presença em nível internacional, porque prevalecem seus interesses pessoais acima de tudo.

 

No entanto, alguns acadêmicos especialmente europeus seguem vendo desde fora à América latina como o laboratório para experimentar e predicar que a solução às grandes desigualdades de nossos países é a atual esquerda. Outros mais realistas, ao pouco tempo de analisar as políticas destes regimes, começaram a destacar as diferenças entre eles.

 

Para diferenciar "às esquerdas" alguns começaram a nomeá-las e realizar diferentes caracterizações que iam desde os modelos de renovação, inovação, e revolução, até aos nomeados como esquerda light e esquerda radical, esquerda carnívora e esquerda vegetariana.

 

Desta maneira, ficava cada um de seus líderes nas diferentes esquerdas. De acordo, com a visão política, por exemplo, Lula e Michelle Bachelet (ex-presidente do Chile e membro do partido socialista) sempre se relacionaram com a esquerda renovadora, a light ou a vegetariana. Por outro lado, a Chávez e Ortega, se lhes encerrou dentro da revolucionária, radical ou carnívora, pelo autoritarismo, o populismo e as violações aos direitos humanos que sofrem aqueles que pensam diferente a eles.

 

O atual palco eleitoral brasileiro, demonstra que a candidata do PT, Dilma Rousseff, é uma das favoritas para ganhar as eleições de 3 de outubro. Pelo seu histórico como revolucionária e no hipotético caso que ela resultasse ganhadora, deveríamos esperar que ela se alinhasse com a esquerda radical latino-americana? E sendo assim, qual preço pagaria o Brasil?

 

O Brasil ganhou seu lugar no atual palco internacional e, portanto, cada vez terá mais influência, mas não necessita se alinhar à proposta da "esquerda revolucionária". Pelo contrário. O país deve ampliar sua influência de acordo com seus valores de paz e democracia, porque estes são os valores que lhe garantirão um lugar importante no mundo. O próximo presidente do Brasil deve ser um bom gerente e com grande vocação de serviço público. Além disso, também precisa ser um grande latino americanista.

 

Fran Espinoza é Politologo, graduado na Universidade Rafael Landivar (Guatemala), Mestrado em Estudos Internacionais de Paz, Conflito e Desenvolvimento, Universidade Jaume I, Castellón (Espanya), doutorando em Estudos Internacionais e Interculturais, Universidade de Deusto, Vizcaya, Espanha. Contatos: espinoza.fran@gmail.com

 

*Os textos publicados neste espaço são de responsabilidade única de seus autores.

03/05/10 | 20:21h

Na América latina, as povoações indígenas, comportam uma porcentagem significativa dos pobres rurais, que vivem na periferia em zonas marginais e com freqüência carecem de terra. De acordo com a Patrinos, representam ao redor de 27% da população rural. Um estudo realizado sobre pobreza rural demonstra que em 11 de 18 países a população indígena aparece entre os grupos pobres rurais.

 

Existe uma forte alienação funcional e educacional. A maioria dos indígenas ainda utiliza sua língua nativa e não pode comunicar-se em espanhol, por exemplo, 70% dos bolivianos das zonas rurais se comunicam em quíchua ou aimará. No Peru, onde a maior parte da população é indígena, 70% de mais de cinco anos de idade que fala quíchua, nunca foram à escola, em comparação com só 40% no caso dos peruanos não indígenas. De acordo a Hernández (1998), citado em Patrinos (1998), na Argentina, 56% dos mapuches não vai à escola, em comparação com 7% no caso da população não indígena.

 

Na Guatemala e na Bolívia, existe uma estreita relação entre educação, ingresso e o fato de ser indígena. Se determinou que ditas povoações têm níveis inferiores de rendimento da escolaridade que os não indígenas Psacharopoulos, (1993). Nos casos do Peru e a Guatemala, existem muitos aspectos desconhecidos aproximados das atividades trabalhistas dos indígenas. Especialmente aqueles que residem e trabalham em zonas rurais, com frequência se consideram equivocadamente como desempregados ou subempregados.

 

Na maior parte de países as povoações indígenas têm taxas de mortalidade muito maiores que os promédios nacionais. No Peru, a taxa de mortalidade infantil é de 169 por cada 1.000 nascidos vivos, em comparação com 269 por cada 1.000 nascidos vivos no caso da população indígena. Na Bolívia, a taxa nacional da mortalidade de crianças menores de cinco anos por cada 1.000 nascidos vivos é de 122 para os hispano falantes e de 186 para as pessoas que falam língua indígena.

 

Na atualidade, uma das explicações que se dão a este fenômeno, na América Latina, é que em diferentes países sempre predominou uma visão dualista da sociedade: o rural e o urbano, o agrícola e o industrial, etc, dando como resultado, um setor privilegiado em prejuízo de outro, a visão do urbano a que se impôs como símbolo da modernidade, do desenvolvimento e em geral do novo. Esta visão do mundo se baseava no predomínio da indústria com assentamento urbano e a transformação da sociedade rural ao ritmo das mudanças tecnológicas que se adaptavam na agricultura, submetida também a um processo de industrialização.

 

Figueroa em uma de suas conclusões do afastado país, onde a proporção da população indígena é mais alta e mais desigual, afirma que o núcleo da pobreza se encontra nas povoações indígenas. Parece muito claro que as povoações indígenas constituem os grupos mais pobres na América Latina. E como estão dotadas dos mais baixos bens econômicos, políticos e culturais.

 

Em resumo, devido à visão dualista que se reproduziu nas sociedades latino-americanas se pode dizer que existe uma estreita relação entre pobreza, indígenas e o rural, o que, por sua vez, é dado como resultado a exclusão de um determinado grupo étnico.

 

Fran Espinoza é Politologo, graduado na Universidade Rafael Landivar (Guatemala), Mestrado em Estudos Internacionais de Paz, Conflito e Desenvolvimento, Universidade Jaume I, Castellón (Espanya), doutorando em Estudos Internacionais e Interculturais, Universidade de Deusto, Vizcaya, Espanha. Contatos: espinoza.fran@gmail.com

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11/04/10 | 22:09h

Em países com um alto grau de racismo costuma dar-se uma situação bastante peculiar, porque as povoações excluídas costumam ser usadas como caras no exterior pelos institutos de turismo e as agências de viagens. Dois exemplos representativos são: A Guatemala e o Brasil, no primeiro o "indígena" vende-se por ser o tradicional e o colorido - o étnico -, no segundo vende-se "o preto", pela história, a música, a dança e a sensualidade, não se necessita ser um esperto no tema para dar-se conta que nessas povoações é onde se concentram os mais altos níveis de pobreza e exclusão.

 

Tanto a pobreza como a exclusão são dois elementos bastante estudados, analisados e refletido na Universidade, geralmente esta questiona o papel que historicamente teve o Estado com os excluídos e como este fenômeno se veio reproduzindo em diferentes períodos. Mas, poucas vezes se questiona o papel da Universidade à qual pertence uma pequena elite e que no final se transforma em uma espécie de clube ao que poucos poderão ingressar.

 

Se bem é certo, há algum tempo se vem falando sobre as quotas para afro-descendentes nas universidades brasileiras (ação afirmativa, como alguns de seus defensores a chamam). O tema avança bastante lento nas universidades onde se o colocaram, enquanto em outros países nem sequer é um tema de discussão. Durante minha estadia em Sergipe um professor da Universidade Federal de Sergipe, me dizia que ele estava trabalhando para que este projeto avance:

 

- Amigo, sabe por que estou fazendo isto, porque se não é assim os pretos seguirão excluídos. A classe média brasileira, à qual pertencem muitos professores universitários, quer manter a situação como até hoje, não lhes interessa que as coisas mudem porque não querem ter concorrência e pior concorrência preta - disse ele.

 

É necessário perguntar, se está se jogando com o duplo discurso? Que os pretos estudem, mas não se há muito para que isso avance. Para refletir sobre este tema é necessário levar em conta alguns dados: de acordo à revista Carta Capital, no ano 2000, dos 50 aspirantes a Direito na Universidade Federal de Sergipe, havia quatro pretos, dos quais somente dois se receberam. Segundo essa revista, um professor dessa casa de estudo, fez um comentário interessante: "A discriminação no Brasil quase nunca é explícita. Somos adestrados culturalmente para evitar conflitos". Como interpretamos esse comentário?

 

Bonaventura de Souza comentava em uma conferência realizada em Santa Cruz de La Sierra, a Bolívia, que no Brasil 184 anos depois da independência, por alguma razão, 95% dos pretos são pobres, enquanto na população branca só há 40%. A marginação social das povoações afro-descendentes era considerada um problema de classe, não tinha especificidade. Agora se reconhece que além de um problema de classe é também um problema racial. Falamos muito do Estado monocultural, mas as universidades latino-americanas são totalmente monoculturais. Talvez mais monoculturais que o Estado, porque pelo menos o Estado é forçado a cada dia a ver os problemas. A Universidade olha seu umbigo, se fecha e segue pensando como no século XIX. Por isso é preciso inventar outra universidade.

 

Da mesma forma que algumas instituições tradicionais com poder e capacidade de incidência se lhes questiona seu papel e tiveram que começar a plantear seu novo papel social e político, a igreja, por exemplo, a Universidade na América latina terá que começar a adequar-se aos tempos tantos nas suas análises, contribuição e a novas teorias que se adaptem aos tempos, assim como em algumas de suas missões - trabalhar de mais uma maneira prática para alcançar maior justiça social.

 

Fran Espinoza é Politologo, graduado na Universidade Rafael Landivar (Guatemala), Mestrado em Estudos Internacionais de Paz, Conflito e Desenvolvimento, Universidade Jaume I, Castellón (Espanya), doutorando em Estudos Internacionais e Interculturais, Universidade de Deusto, Vizcaya, Espanha. Contatos: espinoza.fran@gmail.com

*Os textos publicados neste espaço são de responsabilidade única de seus autores.

 

Comentários

13/04/10 - Rosangela

Parabéns ao Professor Fran pela lucidez do seu artigo sobre o papel da universidade brasileira.Este modelo de instituição está deveras ultrapassado pelo ação hitórica de exclusão social promovida sob a tutela de um estado que neste século deseja promover justiça social.
COTAS RACIAIS JÁ. Saudações ao amigo Fran.

 

 

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23-11-2020
 

 

 

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